Biodiversidade e Agroflorestas: chaves para o futuro humano

por | mar 5, 2020 | Meio Ambiente | 0 Comentários

Muito se tem falado ultimamente nas mídias sobre os impactos negativos que estamos causando na natureza e, claro, das consequências destes impactos em nossas vidas. Parece que o ser humano está entendendo de uma vez por todas que suas más ações perante o meio ambiente estão atraindo cada vez mais problemas para ele mesmo e para todos os seres vivos presentes na Terra. Embora sejam complexas e profundas todas essas alterações causadas, o que tornam difíceis as explicações, um fator tem chamado a atenção ao redor do planeta, a perda da biodiversidade das espécies existentes no globo.

O que é biodiversidade?

É a variabilidade entre organismos vivos de todas as origens, incluindo ecossistemas terrestres, marinhos e outros ecossistemas aquáticos e os complexos ecológicos dos quais eles fazem parte; inclui a diversidade dentro de cada espécie, entre espécies e entre ecossistemas. Por exemplo: todas as espécies que convivem juntas na floresta amazônica, desde animais e plantas até fungos e bactérias, todos interagindo entre si, no chão na terra e no ar.

Redução da biodiversidade no planeta

As consequências de mudar essa escala ainda não podem ser previstas, nem mesmo pelos principais cientistas humanos da área, mas esses já podem garantir uma coisa com certeza: a raça humana não gostará dos resultados dessa perda. As causas da diminuição da biodiversidade são nossas próprias atitudes em relação ao meio ambiente, um conjunto de ações danosas e equivocadas do bicho homem com a sua casa, o planeta terra. Dentro desse conjunto podemos destacar a pesca predatória, a derrubada de árvores para implementação de pastos e as práticas para a manutenção de nossa agricultura “moderna”. Essa última terá nosso foco na análise. 

Com o objetivo específico de aumentar a produtividade, nossa produção agrícola ocupa o centro do palco entre as atividades que mais prejudicam a biodiversidade no mundo. Tudo isso porque nas monoculturas (forma de cultivo de uma única espécie), o que vemos é uma interação inconsciente com o próprio ambiente, devastando florestas, forçando o solo por meio de plantas geneticamente modificadas e intervenções químicas profundas, tanto para fertilidade quanto para o controle de pragas e doenças. Perdemos milênios de sabedoria agrícola, desde quando as espécies locais eram valorizadas e cultivadas em suas regiões de origem, tornando a agricultura uma atividade vasta e biodiversa.

Agrofloresta: um caminho de reconexão


As práticas agroflorestais são o conjunto de tipos de sistemas de produção que têm maior biodiversidade e capacidade de sequestro de carbono (elas captam o carbono da atmosfera e fixam no solo em forma de nutrientes). Entre eles, os sistemas multiestratificados são os mais complexos, perdendo apenas para as florestas naturais, em termos de biodiversidade.

Sistemas multiestratificados são aqueles que apresentam plantas que ocupam várias camadas na paisagem, indo desde a camada mais baixa composta por gramíneas e espécies arbustivas, passando por camadas intermediárias com árvores e plantas de pequeno e médio porte, indo até as camadas mais altas compostas por árvores de grande porte.

Em uma agrofloresta multiestratificada, a biodiversidade contribui, assim como na floresta nativa, para que exista equilíbrio na área em que é encontrada. Quanto maior o número de interações que ocorrem, maiores são as chances de que nossas agroflorestas se desenvolvam fortes, saudáveis ​​e sem intervenções externas, como fertilizantes e herbicidas.

A matemática é simples e bem lógica: se antes havia uma plantação somente de café, por exemplo, as interações no ambiente ficavam restritas às plantas de café apenas, todas na mesma altura, com o mesmo tipo de raiz e atraindo os mesmos bichos. Agora, se a essa plantação de café forem adicionadas outras 10 espécies de plantas, como alguns capins, banana, mamão, mandioca, árvores para produção de madeira, entre outras, o número de interações naquele mesmo ambiente vai aumentar exponencialmente. Cada planta com um tipo de raiz, com alturas distintas, tamanho de copa diferentes, todas interagindo entre si. Soa mais interessante, não?

A natureza faz o seu papel


A ocupação estratificada (ou em camadas) em uma agrofloresta é cuidadosamente planejada para que a energia do sol seja capturada e aproveitada com o máximo de eficiência possível. Para isso, um grande número de espécies deve compor o sistema, cada uma ocupando seu devido lugar na sucessão ecológica. Com o tempo, algumas plantas serão removidas, outras poderão ser adicionadas e outras sofrerão um tratamento especial, tudo de acordo com o cronograma de cada sistema específico, mas a alta biodiversidade sempre estará presente.

Bruno Lenzi Caldonazzo – Engenheiro Florestal especialista em Sistemas Agroflorestais

É por isso que os sistemas agroflorestais regenerativos são cada vez mais necessários, porque buscam resgatar uma agricultura que interage racionalmente com o meio ambiente em busca de um equilíbrio e cooperação natural onde são implementados, não apenas produzindo alimentos, mas também recuperando as características de cada área.

Agricultura do futuro

O bicho homem deverá começar a pensar em novas formas de interagir com a natureza daqui para frente. Do contrário, como dizem os cientistas, teremos ainda mais problemas. Basta ler os jornais e acessar os sites de notícias mundo afora para perceber que as coisas não andam bem. A agricultura do futuro deverá contemplar esses aspectos ambientais em sua base, ou corre o sério risco de deixar de existir. A busca por uma vida mais equilibrada, o desenvolvimento de tecnologias e o investimento por parte dos governantes em novas formas de sanar esses danos ao meio ambiente são algumas das atitudes a serem tomadas, individual e coletivamente. Já existem soluções disponíveis e pessoas dispostas a fazerem a diferença, resta agora a esperança de que isso viralize. 

Para se aprofundar:

Livro: Agroflorestando o mundo do facão ao trator