Farinhada: Tradição centenária

by | Jun 8, 2019 | Comunidade | 0 comments

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os meses de maio e junho, pelos engenhos da Garopaba e Imbituba, acontecem as colheitas de mandioca e as “farinhadas”, a produção artesanal da farinha de mandioca. O trabalho, que era feito totalmente à mão e com a ajuda dos bois, hoje ganha o auxílio dos motores elétricos, o que permite à dona Santina Gonçalves Marques e ao seu Ademir Marques produzir, quase que sozinhos, cerca de 10 toneladas da iguaria. O raspador elétrico faz 2mil quilos num dia. Coisa que a gente, na mão, fazia 500”, comemora o seu Ademir.

Mas a modernidade está longe de deixar o trabalho fácil: tudo começa no plantio. “Tem que limpar a terra, lavrar, plantar e carpir por um ano e meio. E tudo na época certa. Outubro de um ano se planta, passa o outro, e em junho do ano seguinte se colhe”, explica seu Ademir. Depois de sair da terra, começa a fase de “cascar” a mandioca, que mesmo feita pela máquina, termina com a destreza da faca na mão, tirando o que só o olho do homem vê. Antes do motor, era uma comunidade inteira, descascando e conversando noite adentro.

A mandioca então é lavada e vai para o “cevador”, antigamente tocado pelo boi para moer as raízes e transformar em uma pasta úmida. Do coxo para a prensa(F), embaladas em sacos separados pelas esteiras de tipitim e apertados por uma morsa gigante que tira a água da massa. “Hoje não dá trabalho”, avisa seu Ademir, mesmo não parando um minuto sequer durante o processo.

Depois de seca e moída mais uma vez, a farinha crua vai para o forno à lenha. Lá ela também não fica parada, é mexida o tempo todo, com a temperatura cuidadosamente controlada. “O forno não pode estar muito quente, porque torra a farinha, nem pode deixar morrer”, alerta a dona Santina, branquinha de “fornear” e peneirar a obra de arte que sai pronta para o consumo. Tem gente que vem de longe comprar farinha aqui. Diz que a farinha aí de fora não dá pra comer, é mole”, confessa ela.

E todo ano é assim. Durante dois meses, durante a vida toda. O engenho já tem mais de 80 anos, comprado por Ademir de seu pai, seu João Hortenço, para manter a tradição da terra. Das 5h da manhã até às 6h da tarde, o casal farinha o dia todo. E quem quiser prosear, é melhor botar a massa. Ou pode ficar tonto, tentando acompanhar com os olhos o movimento ligeiro desses dois artesãos da farinha de mandioca.